GRES Grande Rio nasceu Acadêmicos de Duque de Caxias. Para que a agremiação fosse filiada à Associação das Escolas de Samba da cidade do Rio de Janeiro, teria que ser oriunda de um bloco carnavalesco. Para tal, surgiu o G.R.B.C. Lambe Copo, localizado no bairro Prainha, no Município de Duque de Caxias, e filiado à Federação dos Blocos Carnavalescos do Rio de Janeiro. Tendo apoio de quase todas as escolas de samba da Associação, de quase todos os políticos do município, da sociedade caxiense e, principalmente, dos sambistas. Reuniram-se os fundadores e foi feita a eleição para a primeira diretoria do Acadêmicos de Duque de Caxias.

 

Quando a G.R.E.S Acadêmicos de Duque de Caxias foi disputar o quinto grupo de acesso das Escolas de Samba, surgiu a ideia da escola disputar o segundo grupo, para isto teria que adotar o nome da antiga escola G.R.E.S. Grande Rio. Depois de várias reuniões com a Diretoria os membros da antiga Escola Grande Rio, o Presidente de Honra Jayder Soares sugeriu que se fizesse a fusão das duas agremiações e no dia 22 de setembro de 1988 passou a ser chamar ACADÊMICOS DO GRANDE RIO.

(Fonte: Wikipedia)

GRES Grande Rio

“Tata Londirá. O Canto do Caboclo
no Quilombo de Caxias”

SINOPSE DO ENREDO

Tata Londirá
O Canto do Caboclo no Quilombo de Caxias

Chega de violência, sofrimento e dor
O pelourinho ainda não findou
para os ocultos opressores da nação
G. Martins, Adão Conceição, Barberinho, Queirós, e Nilson Kanema
– Águas claras para um rei negro
(samba de enredo do carnaval de 1992)

Pandeiro quando toca
Faz Pedra Preta chegar
Viola quando toca
Faz Pedra Preta sambar
Baden Powell e Vinícius de Moraes –
Canto do Caboclo Pedra Preta

Rio é orixá, vento é inquice, maré é vodum,
pedra de riacho é encantamento de bugre.
Luiz Antonio Simas – A morada do rei dos índios

Okolofé!
Xetruá! Maromba Xeto!
Viva o Brasil-Caboclo e salve o Brasil-Pandeiro!
Jurema, Jibóia, Peri, Jupiara, Flecheiro, Jaciara, Aimoré, Tupiaçu, Campina-Grande,
Cobra-Coral, Sete-Flechas, Sete-Encruzilhadas, Girassol, Sultão-das-Matas, Guiné,
Jaguará, Pena-Branca, Araranguá, Tabajara, Cachoeira, Tupaíba, Rompe-Mato, Guaraná,
Mata-Virgem, Sete-Estrelas, Folha-Verde, Treme-Terra, Tira-Teima, Tupinambá,
Ubirajara, Águia-Branca, Ventania, Arranca-Toco, Vira-Mundo… em verde, vermelho e branco, as cores dos seus cocares.

Em verde, vermelho e branco, as cores que nos irmanam.
Sambemos!

O samba é o dono do corpo. Exu, o pó das estradas: Laroyê!
Clareia, Dindinha… As noites sem-fim da Bahia, já dizia Jorge Amado, guardam os sonhos daqueles que ousam varrer o mundo. Fumaça, perfume, poeira no redemunho. No fundo, no escuro da casa, as aparições teciam destinos emaranhados. Causos, sopros, quebrantos. Olhos pretos de carvão! Rede que balançava a Lua nas lamparinas. Um clarão e o vulto ali: era homem?, era bicho? Voo de vaga-lumes, raízes tão retorcidas. As vozes dos devaneios indicavam o desenredo: deixar para trás os medos, nos passos do Conselheiro; seguir em direção ao mar e reinar no Trono de Angola. João Alves de Torres Filho, menino, vestiu-se em asas de pássaro.

Deu-se o fogo no mato!
Até parece mentira, até parece milagre.

O samba é o dono do corpo. Ao Sol de São Salvador: Agô!

Flores aquareladas, folhas no chão do mercado. Coube ao velho Jubiabá, feiticeiro de muitas histórias, raspar a cabeça do moço. No alto do Morro da Cruz, sorveu o saber dos encantos. Nas festas de Dois de Julho, vestiu-se em mantos de penas. Vou-me embora pro sertão; viola, meu bem, viola! Foi na roça da Gomeia, aos pés de uma gameleira, que João da Pedra Preta firmou o seu Candomblé. Foi na roça da Gomeia, caminho de São Caetano, que as gentes mais afamadas fizeram mandinga e fuzarca. Dendezeiros, mesa farta. Axoxô e aluá. Quem não viu o bailado forte da Corte dos Orixás?

O samba é o dono do corpo. Oxóssi, o Rei caçador: Okê Arô!

Deu-se, então, a navegação. Para ser livre, nunca é tarde demais. Búzios, cauim, juremeira. Cascas, flechas de Keto. Perseguido por suas crenças e por sua visão libertária, João seguiu mar afora, aos braços do Redentor. Encontrou no chão de Caxias o ponto da nova Gomeia. Plantou os ensinamentos colhidos na roça baiana. Aldeia contemporânea, evocação ancestral. Baixavam os caboclos na Baixada, Auê!, no mesmo transe dos deuses d’África (oceanos de travessias). Bravos guerreiros daqui, saberes do ventre da mata. Do lugar, Oxóssi era o dono. Iansã, a mãe zeladora. Lambaranguange Mutalambô! Caça na Aruanda, ô coroa!

O samba é o dono do corpo. A carne é de carnaval: Evoé!

João, malandro e vedete, abraçou o fuzuê das ruas – e no frenesi dos bailes causou o maior dos espantos. O pavão é um “passo” bonito; com suas pena dourada! Deuses de todos os credos reinavam nas passarelas. Qual não foi o bafafá quando ousou se vestir de Cleópatra? Foi ainda Faraó – “Saravá, meu pai Ramsés!” Do Teatro de Revista, herdou os leques de plumas. E nas escolas de samba foi “herói da liberdade”: Ganga Zumba, líder quilombola da saga de Palmares! Fama e notoriedade, luxo e raro esplendor. Oropa, França e Bahia bordadas em fantasias. Sob um céu de decorações, desfilou a sua grandeza. Alfinetou nos jornais: os olhos o procuravam!

O samba é o dono do corpo. O show não pode parar: Bravo!

João, bailarino brilhante, rompeu as fronteiras do rito. A arte o transfigurava: nos palcos da Zona Sul, nas luzes de hotéis e cassinos. Deixou no Municipal o aroma de benjoim. Deixou com Mercedes Baptista o sumo do seu bailado. Do Catete ao Katendê: foram muitos os notáveis que a ele entregaram a fé. Câmara Cascudo e Edison Carneiro beberam do axé caxiense – e podiam tranquilamente girar com Getúlio Vargas. Dos tragos com JK adveio a missão secreta: arriar mais de cem ebós em um eixo profetizado. Dizem que veio dela, a Rainha da Inglaterra, o título maioral: Joãozinho da Gomeia, o “Rei do Candomblé”! A ele enviava presentes e à distância se consultava – graças ao amigo Chatô, nos ecos dos carnavais…

O samba é o dono do corpo. Oyá, nas rosas vermelhas: Eparrei!

O vento que corta, arrepia. O raio que estoura, ensurdece. Nas folhas não maceradas, João avoou encantado – e pode ser redesenhado, andorinha no arrebol; e pode ser reinventado, enfim Labá-Labá. Na batida dos tambores, no Eruexim de Iansã, na espada de Kaiangô. Afefé! Podem ser revisitados os encontros na Gomeia, podem ser reinstalados o desejo e a magia. De ver os terreiros floridos nas tardes de luz e festa. De ver as estrelas candentes no espelho das noites de gala. Fitas e franjas balançam e dançam nas festas juninas. Pinturas de jenipapo, grafismos de urucum. Nos traços do mestre Abdias, no abô de Omindarewá.

João de Inhambupe.
Do barro encarnado, o chão de Caxias.
Da terra que clama o chão de Zumbi.
Do Brasil que se faz cortejo. Do Brasil-contradições.
São negras memórias que se entrelaçam, em ciranda, com o tempo.
Tempo Rei, compositor. Nzara, Senhor Kitembo!
São negras vitórias que moram nos roncós das nossas almas
– e que na avenida explodem num grito de pertencimento. Respeito!
São negras histórias marcadas nos pés do nosso passado
– e que num presente tão duro resistem feito mocambos. Não quebram!
Vibra novamente o couro do atabaque!
Verde em cada menino o tronco do Quilombismo!
Porque há sempre de ecoar mais forte o canto de cada Caboclo.
Viva o Povo-de-Santo e salve o Brasil-Terreiro!
Xetruá! Maromba Xeto!
Axé, Tata Londirá!

Eu sou jongueiro, baiana
Sapucaí, eu vou passar
E a Grande Rio vem comigo, saravá!


 

Pesquisa e Texto: Gabriel Haddad, Leonardo Bora e Vinícius Natal
Colaborações e Agradecimentos: Mãe Sandra da Gomeia (Seci Caxi), Tata Sergio Jitu, Carlos Nobre, Danyllo Gayer, Luise Campos, Luiz Antonio Simas, Maria Augusta Rodrigues, Renato Ferreira, Taís Noronha, Tânia Amaro, Thiago Hoshino

*Texto divulgado à imprensa

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